Douglas “Lagarto” da Silva (Tzimisce e Regente do Sabá na América Latina)

Nem mesmo os cainitas do Sabá sabem a data certa da chegada de seus senhores ao Brasil. Muitos acreditam que os primeiros pisaram em terra firme antes do século XVII, enquanto outros negam essa teoria e afirmam que os primeiros foram os Tzimisce, na primeira metade do século XVIII. Entretanto, o que se sabe com certeza é que Douglas “Lagarto” da Silva foi abraçado por volta do ano de 1715 DC e, no ano seguinte, liderou uma revolta com mais quatro cainitas, matou o seu senhor e decretou o nascimento do Sabá no país.

Durante muito tempo, ele instaurou o pavor e o medo pelas noites nos estados do Espírito Santo, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Possuía poucos membros em sua seita, mas o que mais fascinava era a sua liderança e capacidade de mantê-los fiéis como um cardume. Seu maior aliado, o Lasombra Alfredo “Alf” Nunes, agia como um general em seus planos. Antes do fim do século XVIII, ele já comandava as ações do Sabá nesses quatro estados com a autoridade de um ditador. Sua palavra era ordem e seu desejo, um objetivo a ser conquistado em troca de status dentro da seita.

O primeiros anos foram conturbados na história do país. Ricos, pobres, latifundiários, servos, escravos, todos eram vítimas da fome insaciável de Douglas e os seus seguidores. A Camarilla do Brasil, na época, era totalmente deficiente e esparsa. Apenas alguns membros organizavam as reuniões e eles não tinham poder de definir nada nas cidades em que viviam. O Sabá percebia essa fraqueza. Para Douglas, a Camarilla não passava de uma reunião de aristocratas assustados, escondidos atrás de tradições que não possuíam força suficiente para proteger ninguém. Ele não precisava destruir seus inimigos imediatamente. Bastava pressioná-los até que começassem a cometer erros. A estratégia funcionou. Enquanto os poucos príncipes e anciões da Camarilla tentavam estabelecer domínios estáveis, Douglas transformava estradas, portos, fazendas e pequenas cidades em corredores de caça. Seu grupo não precisava controlar todos os territórios. Bastava controlar aqueles que permitiam a circulação de pessoas, informações e sangue.

Foi também nessa época que começaram os primeiros rumores sobre criaturas que não pertenciam à Família. Lupinos eram vistos nas matas, sobretudo nas regiões próximas às serras e aos grandes fragmentos de floresta. Para o Sabá, os lobisomens não eram aliados nem inimigos políticos. Eram algo muito mais antigo e perigoso e Douglas aprendeu a não subestimá-los. Alguns de seus seguidores desapareciam ao entrar em regiões consideradas sagradas pelas criaturas. Outros eram encontrados reduzidos a pedaços. Graças a isso, Douglas simplesmente ordenava que seus membros desviassem as rotas para evitar determinadas matas. Para esses metamorfos, tanto a Camarilla quanto o Sabá eram manifestações diferentes do mesmo problema: predadores mortos-vivos ocupando territórios que deveriam pertencer à natureza.

No meio deste terror e da completa falta de esperança, um acontecimento iniciou a reviravolta no cenário vampírico do país. Bem no início do século XIX, mais precisamente no ano de 1808, a Família Real Portuguesa chegou ao Brasil. Nas embarcações, vieram membros de toda a Camarilla, contudo a maioria era formada por Toreador e Ventrue. Foi o suficiente para que a seita pudesse ao menos se instalar, mesmo tendo de se esconder no início.

Houve membros que foram para o sul do país, instalando-se no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Dentre eles, apenas o Paraná jamais foi conquistado pelo Sabá. Tudo graças às ações de um suposto Gangrel que vivia próximo à tríplice fronteira, cujo apelido era nada mais nada menos do que “El Hijo Del Diablo”, dado pelos espanhóis e imigrantes mortais diante dos casos que imaginavam ser obra da encarnação de um demônio. Todos os membros do Sabá que entravam nessas terras eram caçados e eliminados. Douglas, com medo de despertar mais uma ira nesse possível Matusalém insano, teria abandonado os seus planos por lá. Paralelamente, investigadores da Camarilla descobriram que esse Gangrel era um holandês que havia se mudado para a região antes mesmo do descobrimento pelos portugueses e, curiosamente, não atacava os cainitas desta seita, o que fez surgir a especulação de que ele teria feito parte da Camarilla europeia. Ninguém jamais conseguiu encontrá-lo e a última vez que deixou rastros foi no final do século XIX.

A chegada da Camarilla impulsionou o equilíbrio de poder. Os conflitos eram inevitáveis e as cidades se dividiram. Douglas perdeu parte do poder, mas ainda continuava absoluto em determinadas regiões. Iniciou-se, então, uma guerra política que ocasionalmente gerava perdas para ambos os lados. Esta foi considerada a pior época dos cainitas na história do Brasil, eles viam a Máscara ser quebrada todas as noites por seus inimigos, as Tradições sendo desrespeitadas e o país se tornando um grande barril de pólvora. E ele explodiu quando surgiram duas figuras importantes: Alan Marques, Príncipe Toreador do Rio de Janeiro, e Leopoldo Castanhares, Príncipe Ventrue de São Paulo. A união dos dois foi fundamental para que conseguissem destruir, saquear e expulsar os membros da seita inimiga. Douglas Lagarto jamais se esqueceu disso. E nem perdoou.

Na segunda metade do século XIX, irritados com a perda de terras na América do Sul, membros do Sabá da costa Leste e Oeste dos Estados Unidos vieram auxiliar Douglas em seus planos. Alfredo Nunes teve uma participação fundamental para que ambos pudessem instalar o caos novamente. Durante décadas, a disputa deixou de ser apenas uma guerra entre duas seitas. A Camarilla tentava transformar o Rio de Janeiro numa cidade previsível, organizada e controlável. O Sabá fazia o contrário. Sempre que um território era estabilizado, o Sabá procurava uma maneira de contaminá-lo. Sempre que o príncipe estabelecia uma nova aliança, Douglas procurava descobrir quem poderia ser comprado, ameaçado ou destruído. E sempre que a Camarilla tentava transformar os mortais em instrumentos de controle, o Sabá procurava transformá-los em armas.

Correndo por fora, os Independentes aprenderam a lucrar com o conflito. Os Giovanni, Seguidores de Set e outros grupos que transitavam à margem das duas grandes seitas negociavam informações, territórios e favores com ambos os lados. Douglas não confiava neles, mas reconhecia a sua utilidade. Para ele, independência nunca significava neutralidade. Significava apenas que alguém ainda não havia encontrado um preço suficientemente alto.

Os Anarquistas também começaram a surgir com maior força. Inicialmente, Douglas os considerava apenas jovens revoltados contra a autoridade da Camarilla. Com o tempo, entretanto, percebeu que havia algo mais perigoso. Os Anarquistas conheciam as ruas. Eles conheciam os bairros, os mortais, tudo isso sem o compromisso ou o vínculo com as estruturas rígidas que algemam os cainitas da Camarilla. Muitos deles foram utilizados indiretamente, oferecendo informações, armas e oportunidades de vingança, mas ele jamais os considerou aliados.

O tempo passou e os conflitos amenizaram na região Sudeste e Sul do país. Quase nenhuma ação do Sabá foi vista ou ouvida durante esse tempo. Até que, por volta dos anos 1960, numa ação conjunta entre os Brujah, os Gangrel e os Malkavianos do Rio de Janeiro, eles capturaram oito membros do Sabá e os mantiveram aprisionados num refúgio escondido. Após uma semana, um deles foi libertado para que enviasse um recado a Douglas, requisitando que o líder do Sabá se retirasse do estado ou os oito infelizes iriam “beijar o Sol”. Douglas não admitiu a derrota. Perdeu os seguidores e investiu implacavelmente buscando a vingança.

A cidade voltou a jorrar sangue. Os mortais morriam inocentemente numa guerra da qual não faziam parte. Felizmente para a Camarilla, pela primeira vez ela podia combater o Sabá à altura sem medo de quebrar completamente a Máscara. Os dois lados perceberam que o próprio conflito poderia ser escondido dentro da realidade política brasileira. Era uma época de paranoia, desaparecimentos, violência política e perseguições. Os jornais estampavam todos os dias que milhares de pessoas estavam desaparecidas. Notícias de torturas, assassinatos e violência explícita surgiam constantemente, mas raramente eram atribuídas à verdadeira origem. Para os cainitas, aquela época oferecia uma cortina de fumaça perfeita. A Camarilla conseguia esconder seus cadáveres e o Sabá, as suas atrocidades. E os mortais encontravam explicações suficientes para não fazer as perguntas certas. Foi uma das raras ocasiões em que Camarilla e Sabá, mesmo em lados opostos, foram beneficiados pela mesma tragédia.

De lá para cá, os estados do Rio de Janeiro e São Paulo não enfrentaram muita resistência organizada do Sabá. Houve casos de participação da seita, mas geralmente eram esporádicos e sem nenhuma ofensa grave. Douglas jurava reconquistar esses locais em breve. Porém, o mundo havia mudado. A guerra entre Camarilla e Sabá já não era o maior perigo. A tecnologia transformara os mortais em algo que os cainitas antigos não compreendiam completamente. Câmeras estavam em todos os lugares. Celulares registravam rostos. Bancos armazenavam informações. Satélites observavam cidades inteiras. Redes sociais transformavam rumores em evidências. E organizações humanas começaram a perceber que algumas das anomalias escondidas durante séculos não eram apenas coincidências. A Segunda Inquisição nasceu dessa mudança.

No Rio de Janeiro, três grupos começaram a representar uma ameaça particularmente grave: a OCARJ, o GCAN e os CVN. A princípio, o Sabá acreditou que seriam apenas mais uma geração de caçadores mortais. Foi um erro. A OCARJ demonstrava uma capacidade crescente de investigação, rastreamento e identificação de padrões. O GCAN possuía recursos e conexões suficientes para transformar investigações isoladas em operações coordenadas. E os CVN eram diferentes. Mais violentos. Mais imprevisíveis. Mais próximos da mentalidade de guerra que o Sabá conhecia tão bem. Douglas percebeu que uma nova guerra estava começando e os seus inimigos não eram mais apenas vampiros. Eram humanos que aprenderam a caçar monstros.

O SABÁ E A CAMARILLA

A relação entre o Sabá e a Camarilla no Rio de Janeiro permaneceu marcada por uma hostilidade histórica. Douglas despreza a Camarilla porque acredita que seus membros representam tudo aquilo que considera decadente na sociedade vampírica: burocracia, covardia e apego excessivo às tradições. A Camarilla, por sua vez, considera Douglas a maior ameaça à própria existência da sociedade vampírica, por isso ele se encontra como número 1 na Lista Vermelha da seita no país. Para o príncipe, ele não é simplesmente um inimigo, é uma doença que precisa ser extirpada antes de exterminar a todos. Ainda assim, existe uma estranha fronteira que ambos evitam ultrapassar: a Segunda Inquisição. Quando uma operação da OCARJ, GCAN ou CVN ameaça expor vampiros em grande escala, oa membros da Camarilla e do Sabá podem, ocasionalmente, abandonar seus conflitos para eliminar a ameaça.

O SABÁ E OS ANARQUISTAS

Com o crescimento dos Anarquistas, Douglas encontrou uma nova oportunidade. Eles possuem aquilo que o Sabá perdeu em determinadas regiões: presença nas ruas. Os Anarquistas conhecem comunidades, criminosos, traficantes, comerciantes, hackers e pequenos grupos que não aparecem nos mapas oficiais dos vampiros. Por isso, Douglas mantém contatos indiretos com alguns deles. Mas a relação é extremamente perigosa. O Sabá utiliza os Anarquistas como peças quando precisa desestabilizar um território da Camarilla. Em troca, alguns Anarquistas recebem proteção, informações ou acesso a territórios. Entretanto, Douglas nunca permitiria que um Anarquista soubesse demais. Para ele, qualquer acordo possui prazo de validade. E qualquer testemunha pode ser eliminada.

O SABÁ E OS INDEPENDENTES

Com os Independentes, a relação é mais pragmática. Douglas respeita aqueles que possuem poder próprio, sem exigir lealdade e nem resultados. Contrabandistas, traficantes de informação, mercadores de sangue e vampiros que controlam pequenas redes criminosas podem encontrar no Sabá um parceiro extremamente lucrativo. Mas existe uma regra: não confundir negócios com uma aliança. Douglas pode pagar generosamente por uma informação hoje e ordenar a morte daquele que a vendeu amanhã. Para os Independentes, isso não é uma contradição. É simplesmente o preço de fazer negócios com Lagarto.

O SABÁ E OS LUPINOS

Com os lupinos, não existe política. Não existe diplomacia. Não existe negociação duradoura, somente ódio. Ódio canalizado por anos de conflitos. Sendo assim, o Sabá considera os lupinos inimigos naturais e particularmente perigosos porque eles não desejam controlar os vampiros. Desejam expulsá-los ou matá-los. As matilhas que protegem as áreas de floresta próximas ao Rio de Janeiro são, para Douglas, obstáculos que precisam ser evitados ou destruídos. Entretanto, ele sabe que uma guerra aberta contra os lupinos seria suicídio. Por isso, seus planos para reconquistar o Rio raramente envolvem incursões profundas em territórios selvagens. Ele prefere o concreto, os túneis, os esgotos, os prédios abandonados, os portos, ou seja, lugares livres de pulgas e pelos eriçados. Do lado dos lupinos, há um fato em comum com a Camarilla: Douglas é o principal nome numa lista antiga de monstros que devem deixar de existir a qualquer custo.

O SABÁ E A SEGUNDA INQUISIÇÃO

Em plena segunda década do novo milênio, o verdadeiro problema para Douglas não é a Camarilla e os outros cainitas. São os malditos caçadores. A OCARJ, o GCAN e os CVN representam três faces diferentes da mesma ameaça. Douglas sabe que não pode enfrentá-los como enfrenta outros vampiros. Eles não precisam conhecer toda a verdade. Precisam apenas encontrar uma pista. Um cadáver, uma câmera, um registro bancário, uma testemunha, um endereço, etc. E quando essas informações são conectadas, até o refúgio mais antigo e seguro pode ruir em plena luz do dia. Por conta disso, o Sabá passou a agir de maneira diferente. Seus membros agem separadamente, nunca ficam no mesmo lugar muito tempo, possuem identidades descartáveis e fazem uso de uma imensa rede de carniçais e servos, além de assassinos seletivos. Por fim, Douglas defende que a Segunda Inquisição comete um erro fundamental, acreditando que está caçando monstros; quando, na verdade, está apenas no meio de uma guerra, a qual ainda não compreendeu inteiramente como funciona.